Uma hora parece defender; em outro momento, está ao lado de quem mais desmata. É uma verdadeira relação de morde e assopra.
Assim parece ser a relação da imprensa brasileira com a proteção ao meio ambiente e o enfrentamento das mudanças climáticas. Para que essa relação de morde e assopra se sustente, nada como reivindicar a boa e velha neutralidade: “É preciso dialogar, estar junto de todos os atores.”
O mínimo necessário é lembrar o óbvio: com a espécie humana em risco, não haverá gente para ler ou fazer jornalismo. Não há como ser neutro ou imparcial diante da queimada do planeta.
A cobertura da imprensa comercial sobre o assunto ainda é focada no acompanhamento de desastres naturais. Um avanço que merece ser destacado — ainda que não seja generalizado — é que esses desastres costumam ser associados às mudanças climáticas.
A imprensa também dá atenção ao tema quando se trata do lançamento de estudos e dados, principalmente em momentos específicos do ano. A COP30 no Brasil tem alavancado essa discussão. Quando isso acontece, ambientalistas e cientistas são convidados, ainda que com uma frequência menor do que deveriam, dada a gravidade do problema.
Acontece que a chamada imparcialidade ainda leva a imprensa nacional a dar espaço para o projeto ruralista do Brasil, com a visão de que esses atores são os salvadores do país, o motor da economia nacional.

A maior parte das emissões de carbono do Brasil está associada ao desmatamento, em especial às queimadas. O agronegócio é um dos principais responsáveis por essa devastação. Apesar disso, o setor está presente em programas televisivos e em diferentes plataformas que exaltam a sua grande capacidade.
A imprensa também não deixa de ser patrocinada pelo agronegócio ou por empresas com histórico de destruição do meio ambiente.
Para a própria cobertura da COP30, em Belém, diversos canais de comunicação irão para a região amazônica brasileira com o apoio dessas companhias.
É possível, assim, acreditar que a imprensa terá liberdade para cobrir, de maneira independente e crítica, toda a destruição cometida por essas empresas?
Obviamente, não.
Nesses momentos, torna-se ainda mais importante o trabalho desenvolvido por canais de mídia independente, comprometidos com causas, para denunciar os reais interesses das grandes empresas na região amazônica e em outros biomas do Brasil.
Sem o patrocínio dessas empresas, canais de mídia independente ocupam a brecha deixada pela imprensa corporativa: a de fazer o trabalho de acompanhar o descumprimento da lei brasileira por parte das grandes empresas e denunciar o lobby feito para enfraquecer a legislação ambiental do país.
As mídias independentes também cumprem o papel de dar nome, cor, gênero — ou seja, vida — às pessoas que são as principais vítimas das mudanças climáticas e da destruição ambiental.
Nas grandes florestas, são quilombolas, indígenas e ribeirinhos. Nas maiores cidades do país, moradores das periferias — em sua maioria, pessoas negras.
A comunicação tem um papel fundamental na construção do debate público. Posicionar o público leitor a partir de informações objetivas e comprometidas com a transformação da realidade parece ser um caminho necessário para a imprensa e para a sociedade.
Sem informação de qualidade e completa, não há caminho possível para transformar o atual cenário de desmatamento e emissão de gases que temos no mundo hoje.