Em meio ao calor extremo e à perda de nascentes, moradores, ativistas e cientistas se unem para exigir justiça climática e o direito ao verde na maior periferia do DF

Ilha verde da Lagoinha no Trecho 3 do Sol Nascente (DF) – Foto: Coletivo Retratação
Por Coletivo Retratação
“Antes era bem fresquinho. Tinha muita água. Hoje a gente sente um calor tremendo”. Da porta de sua casa, Sônia Pereira Ribeiro acompanha a área da Lagoinha todos os dias há mais de vinte anos. Aos 67 anos, ela viu o Sol Nascente crescer, as ruas surgirem onde antes havia mata e a água da nascente diminuir pouco a pouco. A paisagem mudou. O clima também, e rapidamente.
Hoje, dona Sônia convive com uma quentura que diz nunca ter sentido antes. A fumaça de queimadas próximas invade a residência, a poeira piora os problemas respiratórios e o lixo acumulado às margens da nascente atrai ratos, insetos e escorpiões. “A fumaça faz mal pra mim e pra minha filha. A poeira também. A garganta começa a coçar, o nariz escorre. Todo mundo fica ruim”, relata.
A poucos metros de sua porta, ela aponta para a área verde que resiste em meio ao avanço da infraestrutura cinza. “Aqui podia ter um parquinho, uma pracinha… um lugar pras crianças, pros idosos, pras famílias. Igual tem em outros lugares. Aqui também podia ser bonito”. O que para muitos parece apenas um terreno vago, para Sônia é um espaço de memória e potencialidade.
Quando chegou ao Sol Nascente, em 2002, o cenário era outro. “Aqui era só mata. Tinha muita água. Era maravilhoso”. Ela recorda o clima ameno, a presença de pássaros e o uso comunitário do espaço. Hoje, o horizonte é marcado pelo descarte irregular de resíduos, queimadas e incertezas. A moradora sintetiza o sentimento coletivo: “A gente não sabe o que vai acontecer com a Lagoinha”.
A Lagoinha abriga uma das poucas nascentes remanescentes no território do Sol Nascente. Ao longo dos anos, converteu-se em uma arena de disputa entre diferentes visões de cidade. Enquanto moradores, pesquisadores e movimentos populares defendem sua recuperação ambiental e destinação como parque urbano e comunitário, o espaço enfrenta pressões contínuas da especulação imobiliária, degradação e intervenções governamentais não dialogadas.
Onde fica e o que é a Lagoinha?
Localizada na divisa entre o Trecho 3 do Sol Nascente e a Ceilândia, a Lagoinha é uma das poucas áreas verdes que resistem no Sol Nascente e que preserva uma das últimas nascentes ainda visíveis em todo o território. Em uma região marcada pela rápida expansão urbana e por mais de uma centena de nascentes que foram aterradas ao longo das últimas décadas, o espaço virou um símbolo de resistência. Sem status formal de proteção, o local oscila diariamente entre o descarte irregular de resíduos, a ameaça da especulação imobiliária e a mobilização comunitária para transformá-lo oficialmente em um Parque Urbano.
No Sol Nascente, uma das maiores regiões periféricas do Brasil, decidir o futuro da Lagoinha significa definir quem tem direito à água, às árvores, ao lazer e ao conforto térmico. Significa determinar quem terá condições de resistir aos impactos das mudanças climáticas.
Com mais de 90 mil habitantes, o Sol Nascente/Pôr do Sol cresceu em ritmo acelerado a partir do parcelamento de antigas chácaras nos anos 1990. A expansão ocupacional precedeu historicamente a chegada da infraestrutura estatal. Ruas sem drenagem adequada, escassez de arborização, saneamento precário e ausência de equipamentos públicos de convivência tornaram-se marcas da paisagem. Sob o contexto da crise climática global, essas assimetrias urbanas convertem-se em vulnerabilidades extremas.
A emergência climática — frequentemente associada a eventos distantes — ganha contornos concretos na periferia. Ela se manifesta no calor retido pelas edificações de alvenaria desprovidas de vegetação, nas enxurradas que cortam as vias sem asfaltamento estruturado e nas dificuldades diárias de sobrevivência urbana.
É nesse panorama que emerge a indagação central desta reportagem: quem decide o futuro climático do Sol Nascente?
A resposta envolve diagnósticos científicos e políticas públicas, mas repousa essencialmente na mobilização popular. Uma das vozes desse processo é Larissa de Souza, assistente social, pesquisadora e integrante do Instituto Filhas da Terra. Para ela, a preservação da Lagoinha extrapola o debate preservacionista tradicional: trata-se de uma pauta de dignidade urbana e justiça ambiental.
“A nossa maior luta é pelas áreas verdes e pelas águas”, afirma Larissa. A ativista ressalta que o crescimento do Sol Nascente deu-se sem o ordenamento de infraestrutura verde e que as populações periféricas sempre lidaram com acessos desiguais à cidade. “A gente não quer tirar morador dali. A gente quer garantir um direito básico”, enfatiza.
Nos últimos anos, o Instituto Filhas da Terra, em articulação com coletivos locais, passou a ocupar a Lagoinha com mutirões de reflorestamento, oficinas de educação ambiental, piqueniques e ações culturais. O objetivo é demonstrar na prática que a área pode ser um parque vivo e integrador.
Durante a entrevista, Larissa emociona-se ao recordar de quando conheceu a nascente com abundância de água. Hoje, testemunha o fluxo hídrico enfraquecer a cada estiagem, consequência de obras inadequadas de canalização e impermeabilização do solo. O contraste entre a memória da água e a ameaça de aridez evidencia a gravidade da disputa pelo território.
EM NÚMEROS: A ATUAÇÃO DO FILHAS DA TERRA
Recuperação Ambiental
- 5.000+ árvores plantadas em áreas periféricas (Sol Nascente, Ceilândia, Pôr do Sol e Samambaia).
- 50+ árvores nativas plantadas na área da nascente da Lagoinha desde 2018.
Ações Comunitárias e Culturais
- 4 edições do festival Ocupa Lagoinha, reunindo arte, grafite e esportes no território.
- Projeto participativo do Parque Urbano da Lagoinha elaborado em oficinas com a comunidade e a UnB.
- Manutenção de hortas comunitárias, rodas de plantas medicinais e apoio psicológico para moradores.

No Sol Nascente, falar sobre adaptação climática também é falar de fé, cultura e pertencimento. – Foto: Coletivo Retratação
Cultura, ancestralidade e clima
O debate sobre a adaptação climática no Sol Nascente não é composto apenas por dados técnicos; ele atravessa a fé, a cultura e o sentimento de pertencimento.
No Terreiro do Vô Congo, no trecho 3 do Sol Nascente, liderado por Mãe Zenith d’Oxum, a preservação da Lagoinha e de outras pequenas áreas verdes, como uma que possui um buritizal perto de sua casa, ganha dimensão sagrada e ancestral. Para a tradição de matriz africana, a natureza não representa um recurso passível de exploração, mas uma extensão da própria existência e da espiritualidade. Árvores, solo e água são detentores de memória e axé.
Ao resgatar os ensinamentos dos terreiros, Mãe Zenith lembra que o cuidado com as matas e as águas é uma prática secular de preservação da vida. Quando uma nascente seca ou uma área verde é concretada, rompe-se um elo fundamental entre a comunidade e a sua ancestralidade. Suas reflexões convergem diretamente com os conceitos contemporâneos de Soluções Baseadas na Natureza: plantar, cultivar e proteger as águas sempre foram preceitos tradicionais de sobrevivência e coexistência. Proteger a Lagoinha é, portanto, um ato de preservação cultural e espiritual.
Paralelamente à dimensão ancestral, a cultura urbana do hip-hop atua como catalisadora da transformação social no território. Francisco Arielton, conhecido também como Chico, 34 anos, liderança à frente da Ela Fav – Casa do Hip Hop Sol Zulu, vivencia a realidade do Sol Nascente desde a infância. Ele acompanhou a transição da terra batida para o asfalto e sente na pele os efeitos da degradação ambiental.
Vivendo com asma, Chico relata como os períodos de seca severa e a fumaça constante das queimadas impactam diretamente sua saúde e a de seus vizinhos. Para ele, a crise climática é uma vivência diária. Por meio do hip-hop, do grafite e das batalhas de rima, a Ela Fav atua no fortalecimento da autoestima da juventude periférica.
“O nosso pedaço de Brasil é a favela. O que tem de melhor aqui são as pessoas”, sintetiza Chico. O ativista defende que cultivar o orgulho do território é o primeiro passo para que os jovens se engajem na defesa ambiental, participem de mutirões e reivindiquem melhorias urbanas. A restauração do clima e da paisagem passa inevitavelmente pelo fortalecimento da identidade cultural local.
Quentura vivida e assimetria ambiental
Quando dona Sônia menciona o aumento da temperatura, ela traduz em linguagem cotidiana o que a academia denomina ilhas de calor. Nos períodos de estiagem, a moradora evita sair de casa nas horas centrais do dia. As poucas árvores existentes tornam-se refúgios térmicos essenciais. “Depois que plantaram essas árvores, ficou mais fresco. Se plantar mais, melhora mais ainda”, pontua.
Os dados científicos ratificam a percepção dos moradores. O Distrito Federal tem registrado eventos climáticos extremos frequentes, como longas estiagens e recordes de temperatura. Em territórios com alta taxa de impermeabilização do solo e escassa cobertura vegetal, os efeitos do calor extremo e das enxurradas são amplificados.
A desigualdade espacial fica evidente no acesso às áreas verdes no Distrito Federal. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) revela a abissal disparidade entre as regiões: o Plano Piloto possui mais de sete vezes a quantidade de áreas verdes, proporcionalmente ao seu território, em comparação ao Sol Nascente/Pôr do Sol.
Em números absolutos, o contraste expressa a dimensão da assimetria urbana: enquanto o Plano Piloto concentra cerca de 46,3 milhões de metros quadrados de áreas verdes, o Sol Nascente/Pôr do Sol conta com apenas 1,1 milhão de metros quadrados para atender a uma das populações mais adensadas do DF. Essa discrepância territorial explicita o racismo socioambiental: as populações periféricas, majoritariamente negras e de menor renda, ficam desprovidas de cobertura vegetal e expostas aos maiores riscos térmicos e hidrológicos decorrentes da crise do clima.
O geólogo Saulo Rodrigues Filho, professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, destaca que as mudanças do clima não impactam a sociedade de maneira uniforme. “As periferias urbanas são muito mais vulnerabilizadas”, pontua, reforçando que o planejamento urbano histórico produziu zonas desprovidas de proteção ambiental. Para o pesquisador, “a adaptação climática é também uma agenda de justiça climática”.
Árvores e zonas de permeabilidade cumprem funções ecológicas vitais: retêm águas pluviais, recarregam o lençol freático, reduzem enxurradas e amenizam a temperatura ambiente. Diferenças térmicas entre áreas arborizadas e superfícies totalmente asfaltadas podem alcançar vários graus Celsius. Enquanto a linguagem técnica fala em métricas e conforto térmico, a comunidade vivencia a insônia causada pelo calor abafado e o agravamento de problemas respiratórios.
Quando a comunidade desenha o próprio futuro
Historicamente, intervenções urbanas nas periferias foram elaboradas sob uma lógica top-down (de cima para baixo), ignorando o conhecimento acumulado pelos moradores. Para contrapor esse modelo, foi construído o Plano Comunitário de Redução de Riscos e Adaptação Climática do Sol Nascente, coordenado pela arquiteta e urbanista Liza Andrade, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB.
O projeto articulou pesquisadores, coletivos, movimentos sociais e moradores em um diagnóstico participativo. “O plano só foi possível porque a gente já estava atuando na comunidade. Não fazia sentido chegar com um trabalho de cima para baixo”, explica a professora Liza.
O levantamento popular alterou a percepção sobre as vulnerabilidades locais. Enquanto dados oficiais do Serviço Geológico do Brasil identificavam 12 áreas de risco no Sol Nascente, o mapeamento comunitário revelou mais de 60 pontos vulneráveis a enxurradas, erosões e alagamentos. “A comunidade mapeou junto com a gente mais de 60 áreas. Eles entendem qual é a vulnerabilidade da situação de risco que estão vivendo”, afirma Liza.
Além da identificação de gargalos, surgiram soluções propostas pela própria população: sistemas alternativos de saneamento, hortas comunitárias, mapeamento de rotas de fuga e redes de acolhimento emergencial.
A professora aponta que um dos principais desafios reside na fragmentação das políticas públicas e na escala de gestão. “Quando um bairro cresce muito, o governo sozinho não consegue dar conta. A comunidade precisa se fortalecer para monitorar, denunciar e construir soluções junto com as universidades, coletivos e associações”.
A drenagem urbana tradicional — baseada em grandes galerias e canalizações rígidas — tem se mostrado insuficiente e causadora de grandes erosões (voçorocas) nas bordas do território. Diante disso, o Plano Comunitário defende a aplicação de Soluções Baseadas na Natureza (SbN): implantação de jardins de chuva, praças de infiltração, bacias de retenção ecológica e parques lineares.
Essas intervenções funcionam sob o conceito de “cidade-esponja”, descentralizando o manejo das águas pluviais e promovendo a recuperação do ciclo hidrológico. Um exemplo prático foi a instalação de jardins de chuva na Escola Classe P Norte, iniciativa que reduziu os alagamentos no entorno escolar e tornou-se referência pedagógica comunitária.
A Lagoinha insere-se como peça estratégica desse arranjo ambiental. Para Liza Andrade, áreas com nascentes não podem ser tratadas como sobras do parcelamento urbano. “Essas áreas não podem ser áreas residuais. Elas são fundamentais para a saúde física, mental e ambiental das pessoas”, ressalta. Embora existam projetos urbanísticos desenvolvidos pela universidade para consolidar o Parque da Lagoinha, a indefinição de gestão entre os órgãos governamentais mantém o espaço sob constante risco de degradação.

Sonia denuncia entulhos e residuos na área da Lagoinha. Foto: Webert da Cruz

Lixo espalhados na Lagoinha se espalham pela calçada. Foto: Webert da Cruz

Moradora reclama dos perigos do acúmulo de lixo na Lagoinha. Foto: Webert da Cruz

Lagoinha luta para ser uma praça verde no Sol Nascente (DF). Foto: Webert da Cruz
Quem decide o futuro da periferia?
A crise climática no Sol Nascente não é um cenário hipotético reservado às próximas décadas; é uma realidade concreta vivenciada no presente através da escassez de água, das ondas de calor, do poeirão da seca e das enxurradas no período chuvoso.
A busca por soluções passa pela integração entre o conhecimento científico, a gestão pública e a organização comunitária. O trabalho dos movimentos locais revela que a resposta aos desafios ambientais da periferia envolve a valorização dos saberes populares.
Como aponta o professor Saulo Rodrigues Filho, enfrentar a emergência ambiental exige combater as assimetrias históricas de infraestrutura: “A adaptação climática é também uma agenda de justiça climática”. Liza Andrade reforça a necessidade de engajamento contínuo da população na formulação das saídas urbanas. Citando Paulo Freire, a pesquisadora resume: “A cidade somos nós. Nós somos a cidade”.
Se o Instituto Filhas da Terra demonstra a urgência de recuperar as nascentes e garantir áreas verdes, a Casa do Hip Hop Ela Fav reafirma a cultura como pilar de pertencimento, e o Terreiro do Vô Congo resgata a conexão ancestral com a terra.
Enquanto os debates institucionais e projetos urbanísticos avançam em ritmos próprios, dona Sônia continua observando a Lagoinha da porta de sua casa. Todos os dias. Ela acompanha as árvores plantadas pela comunidade crescerem, observa a água resistindo no solo e vislumbra um espaço protegido para o convívio de sua família.
Decidir o futuro da Lagoinha e do Sol Nascente vai além da preservação de um remanescente ecológico. Trata-se de definir que modelo de cidade será garantido às periferias. Em tempos de emergência climática, o acesso à sombra, à água limpa, à cultura e ao meio ambiente equilibrado consolida-se como um direito fundamental à vida, à memória e à justiça climática.
A reportagem solicitou entrevista à Administração Regional do Sol Nascente/Pôr do Sol, por meio do administrador regional Oseias Ribeiro de Souza, para comentar a situação da Lagoinha, as ações de preservação ambiental e as estratégias de adaptação às mudanças climáticas no território. O pedido foi encaminhado por e-mail e disponibilizamos qualquer data e horário até 3 de agosto de 2026 para a realização da entrevista. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O contato foi realizado durante o período eleitoral, marcado por recente mudança na gestão da Administração Regional.
A produção foi realizada com o apoio financeiro do Edital FALA!, instrumento de financiamento do Instituto FALA! lançado após a realização do Festival FALA! em Brasília. Conheça mais sobre o Instituto FALA!
Produção Coletivo Retratação
Chefe de Reportagem / Repórter / Editor: Webert da Cruz
Produção audiovisual Micaelle Souza & Crystal Iconic
Fotografia e Filmagens Webert da Cruz e Acervo Instituto Filhas da Terra
Imagens de Drone: Leandro Jones
Edição Audiovisual Kaique de Castro Paz da Silva




